Mudar é fácil, difícil é se transformar

Por isso, não estranha perceber que nós, humanos, mudamos constantemente.
Foto: DivulgaçãoSandrya Rodriguez Valmana, Psicanalista
Sandrya Rodriguez, Psicanalista

A vida, em essência, é mudança. Por isso, não estranha perceber que nós, humanos, mudamos constantemente. No processo de relacionamento social, movidos por circunstâncias externas e internas, vamos nos tornando versões de nós mesmos de forma quase imperceptível.

Mudamos nosso físico, nossos hábitos, nossos gostos, nosso ambiente e até nossas atitudes. Isso vai nos remodelando e provocando reações psíquicas que causam novas alterações na forma de pensar, de sentir e de nos comportar.

Para perceber isso com clareza, basta olhar uma série de fotos de si mesmo, ordenadas cronologicamente de forma crescente. O que você diria desse “você”?

Desafie-se a pegar seus últimos 10 anos e perceba quanta mudança ocorreu. Olhe para além do físico (cabelo, corpo, roupas, amigos e familiares) e relembre quem você era nesses períodos. O que você gostava e te fazia vibrar de felicidade em cada uma dessas fases, quais eram suas aspirações e suas frustrações em cada época. Olhe o quanto você mudou.

Esse divertido exercício comprova que mudar é fácil. Ocorre quase de forma automática, como decorrência da nossa caminhada pela vida e dos encontros e desencontros pelos quais passamos. Podem ser alterações simples, porém, importantes como acúmulo de experiências e habilidades que levam a um amadurecimento emocional.

Observar essa evolução pessoal é um excelente exercício de autoconhecimento. Comparar as versões de si mesmo e buscar as causas das alterações irá te ensinar mais de ti mesmo do que uma sessão de terapia. Você irá perceber que determinados fatos ocorridos nesse período provocaram mudanças e observará repetições que ajudarão a estabelecer um padrão de comportamento emocional.

Pequenas, médias e grandes mudanças são indispensáveis para ganhar autoconfiança e autoestima. Nada ocorre por acaso e, uma coisa é certa: nada foi desperdiçado nessa caminhada até aqui.

Mudar é bom, continue mudando. E, principalmente, não deixe de avaliar essas mudanças. Essa auto-observação pode te levar a um processo de autotransformação.

A AUTOTRANSFORMAÇÃO é uma mudança profunda, com alto poder de empoderamento e bem-estar permanente. É o estágio mais avançado de evolução pessoal, marcado pela independência emocional que resulta da responsabilização pelas próprias escolhas e sentimentos.

Mudar para a versão mais autêntica de si mesmo, não é fácil e nem será imutável. É um trabalho que não acaba, mas, que caminha sempre para uma mesma direção, acrescentando paz emocional a sua existência terrena.

Enquanto as mudanças trabalham fundamentalmente no campo do comportamento e dos hábitos, a TRANSFORMAÇÃO ocorre numa camada mais profunda: a das emoções, crenças e personalidade.

Para entender melhor, vejamos, por exemplo, como seria isso numa pessoa ciumenta. Sabe-se que o ciumento tem a crença de que irremediavelmente será enganado intencionalmente, o que lhe provoca o desejo de descobrir a traição o mais rapidamente possível. Para tanto, desenvolve o hábito de controlar a vida do outro, com comportamentos compulsivos de vigiar os passos dessa pessoa. Essa atitude gera ansiedade, tristeza e irritação, provocando brigas e desentendimentos.

Num processo de mudança, a pessoa ciumenta decidiria não controlar o outro (por exemplo, parar de espionar seu celular), mas, continuaria sentindo as mesmas emoções; portanto, mais cedo ou mais tarde, voltaria para o mesmo comportamento. Num processo de TRANSFORMAÇÃO, a alteração ocorreria nos campos do pensamento e do sentimento, quando, por exemplo, o ciumento entenderia de onde vem a ideia preconcebida “de que será enganado” e, ao ressignifica-la (geralmente em terapia psicanalítica), pararia de sofrer com essa possibilidade, o que o levaria a não repetir mais os comportamentos anteriores.

A mudança é provocada por um desejo de ruptura imediata com o incômodo, enquanto a TRANSFORMAÇÃO é resultado do desapego a esse incômodo. Por exemplo, numa situação em que o emprego traz sofrimento por causa do relacionamento com o chefe, uma pessoa que quer mudar opta pela troca de emprego, como forma de negar e manipular a experiência negativa; enquanto a pessoa que quer se transformar, busca entender essa experiência ruim e aprender a lidar com ela, sem sair do emprego.

Na mudança, há sempre um comportamento reativo em foco, a pessoa lida com uma carência emocional que a leva a buscar formas de negação e experimentação de novas situações que objetivam manipular as velhas experiências. Na TRANSFORMAÇÃO, a pessoa lida com as experiências antigas, aceitando-as e superando-as.

Outro bom exemplo é o do casamento que está ruim. Nele, quem opta pela mudança pode pensar em ter filhos (para melhorar a relação) ou em divórcio (para acabar logo com o sofrimento), quem opta por autotransformação, concentra-se em entender qual a sua responsabilidade na situação e como transformar o relacionamento. O caso da baixa autoestima também é esclarecedor quanto às reações típicas de quem opta por mudança ou por transformação. Quem pensa apenas em mudança pode investir na sua aparência, troca de cidade ou de relacionamento, como se isso fosse suficiente para eliminar o problema, enquanto, quem pensa em transformação, investiga a fundo a origem de sua falta de apreço próprio e muda por dentro.

A mudança é orientada normalmente pela busca do Princípio do Prazer e o desejo de aceitação. Por isso, quem muda, usa máscaras novas para lidar da mesma forma com as velhas circunstâncias, tentando apenas experimentar posições prazerosas em relação aos problemas. A TRANSFORMAÇÃO, pelo contrário, rege-se pelo Princípio da Realidade, aceitando internamente as vulnerabilidades e enfrentando os desafios sem máscaras.

Quem está em fase de mudança está sempre lutando contra a realidade, querendo transformá-la a seu favor, a qualquer custo. Quem está em fase de TRANSFORMAÇÃO, está sempre em paz com a realidade e a supera com autenticidade e sabedoria interna.

A AUTOTRANSFORMAÇÃO é um processo longo que exige conhecimento profundo de si mesmo, pois, só é possível transformar o que se conhece. Nesse sentido, só é possível chegar a essa fase após passar por diversos períodos de mudança e experimentação.

Todavia, a transformação não ocorre de forma automática como resultado das mudanças; pelo contrário, exige um desejo intenso de metamorfose, muito foco, coragem e persistência. Tem que ser encarada pela própria pessoa como uma batalha pessoal de crescimento interno, quase como a única solução para o seu bem-estar mental.

Por isso, só a maturidade emocional permitirá que a pessoa esteja em condições de fazer essa escolha. De nada valem os desejos dos outros nessa empreitada. Amor e ódio podem nos mudar, sem dúvidas, mas, só o amor-próprio nos transforma. A autotransformação é essencialmente uma revolução interna.

Essa experiência humana lembra a transformação da lagarta em borboleta. Não é à toa que a borboleta é tida em todas as culturas como símbolo de transformação e beleza. Como ela, para chegarmos à nossa essência e plenitude, nós, humanos, temos que chegar à fase adulta e olhar dentro de nós, rompendo o casulo (mental), para podermos voar livremente como seres totalmente autênticos.

Muitos preferem não encarar essa jornada solitária e levam a vida sem encontrar sua verdadeira identidade, limitando seu potencial a pequenas mudanças. Alguns são felizes assim, outros precisam mais. Eu tive a sorte de conhecer algumas pessoas desse último tipo e a paz advinda dessa evolução pessoal me conquistou. Eles parecem mais plenos, poderosos e felizes, o que me inspira a seguir esse caminho.

E você, já tinha pensado na diferença entre mudança e transformação? Que caminho você quer seguir? Se optar por seguir a borboleta, comece a focar mais em você, coloque-se em primeiro lugar e, se puder, invista o quanto antes num tratamento psicanalítico para acelerar a jornada do autoconhecimento.

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